sábado, 1 de janeiro de 2011

Resenha: As Contradições da Manutenção da Paz – As Nações Unidas na Nova Era - James Mayall


Resenha proposta pela disciplina de Relações Internacionacionais Contemporâneas.

No presente artigo, o autor expõe as dificuldades existentes das Nações Unidas em atuar com eficiência em suas missões de paz pós-guerra fria pelo mundo, devido às inúmeras dificuldades existentes que sustentem uma coerência dos Estados em promoverem uma nova era de paz no sistema internacional.

O aumento da demanda de atividades e uma crise financeira mundial ocorrendo ao mesmo tempo, somado à falta de compreensão das culturas onde haveriam de atuar, evidenciaram a falta de organização na formação das missões responsáveis por atuarem nas regiões onde haveriam de trabalhar pela manutenção da paz nas regiões em conflito, não promovendo a eficiência da atuação da ONU.

Penso que as contradições advenham da falta de maior entrosamente entre os Estados inseridos nas missões em que se comprometeram e ao conflito de interesses dos governos envolvidos com o comércio de armas que sustentam os inúmeros conflitos regionais que ocorrem por todo o sistema internacional. Devido a imaturidade dos Estados que compõem o conjunto da ONU, tanto quanto o Conselho de Segurança, conforme afirma Mayall,
que as grandes potências estão mais preocupadas com interesses de curto prazo e com as pressões políticas do que com a conversão das Nações Unidas em um instrumento confiável para a manutenção da paz [...] difícil, pois, fugir da conclusão de que a menor qualidade das Resoluções do Conselho de Segurança revela uma incerteza bem profunda acerca do tipo de ordem internacional que elas pretendem promover (MAYALL, 1995, p. 234)
pressupõe sua baixa eficiência em suas atividades, evidenciado pela baixa qualificação de pessoal recrutado, pela deficiência de conhecimentos da língua e da cultura onde haveriam de atuar, além de não transmitirem a devida segurança, que deveria ser pautada na imparcialidade e isenção das missões dirigidas às partes envolvidas nos conflitos, denunciando uma maior atuação universalista da Organização, obviamente, dos Estados que a compõe. Observa-se regimes políticos de muitos Estados do sistema internacional que ainda não atuam de forma democrática, arraigados à sistemas políticos autoritários e paternalistas, dificultando a atuação das Nações Unidas.

Possivelmente, de todas as contradições existentes que ainda impossibilita uma maior eficiência na atuação da ONU, seja as atividades dos atores transnacionais envolvidos na produção e comércio de armas que alimentam as guerras regionais e conflitos civis, seja pela disputa de matérias-primas energéticas e tantas outras atividades promotoras de conflitos políticos e étnicos internos que promovem o fluxo da produção e comércio bélicos.

A intencionalidade de muitos governos ainda é dúbia, pois os interesses políticos e econômicos internos acabam por não condizer com os interesses promovidos pela cultura de paz promovida pela ONU. Ainda perdura a contradição dos que dizem querer a paz mas que alimentam as guerras, pois não abrem mão dos lucros que a indústria e o comércio belicista promovem, a exemplo dos Estados Unidos, maiores produtores de armas do mundo, mas que se dizem portadores de uma “nova ordem mundial”, afirmado pelo então presidente norte-americano George Bush em discurso perante o Congresso dos Estados Unidos (11.09.1990), que esta nova ordem seria para a “promoção de um mundo onde o princípio de direito suplante a lei da selva. Um mundo onde as nações reconheçam a responsabilidade compartilhada pela liberdade e justiça. Um mundo onde o forte respeite os direitos do fraco”, o que não se mostrou condizente da forma como este país atuou na ocupação do Iraque em 2003, não respeitando a decisão do Conselho de Segurança da ONU, mostrando claramente que os princípios do Conselho de Segurança ou das Nações Unidas como um todo, se aplicam à todos os Estados participantes, mas não aos Estados Unidos quando de encontro aos seus interesses particulares.

Leandro Guiraldeli

Resenha: Arms and Arms Control – Joanna Spear

Resenha proposta pela disciplina de Relações Internacionais Contemporâneas.
 
A autora aborda o assunto da proliferação de armas, tanto as de destruição de massa, quanto as de uso convencional, ocorrendo na escalada da corrida armamentista, na época da guerra-fria, onde o acúmulo das armas nucleares, por parte dos Estados Unidos e União Soviética, foi a justificativa para a segurança interna das superpotências e após seu fim, os programas de controle e desarmamento, mas também o contínuo da proliferação de armas atômicas e convencionais – incluindo armas químicas e biológicas -, abordando maior dificuldade em seu controle devido à facilidade de acesso e de transporte por atores não-estatais envolvidos em sua produção e comércio, gerando um dilema que envolve assuntos não somente de segurança, como também econômicos e de ética.
O texto expõe duas condições de proliferação – vertical e horizontal.

Na proliferação vertical, o aumento dos arsenais nucleares pelos Estados que já possuem este armamento e que no pós guerra-fria, sua manutenção ocorre por  considerarem ainda um recurso importante para sua segurança, apesar do esforço por maior controle e diminuição por meio de acordos durante e após a guerra-fria.

A proliferação horizontal demanda pelo aumento de novos armamentos e de países que não tinham e passam a detê-los, inclusive armas biológicas e químicas que são obtidas por atores não-estatais, devido à maior dificuldade em seu controle, tanto de produção quando de transporte. Na questão das armas nucleares, há o esforço dos Estados detentores em tentar impedir que outros venham a ter, bem como no possível uso pelos demais Estados e na criação de acordos para o maior controle do acesso ao material para sua fabricação.

Quatro razões expostas pela autora mostram a relevância que há pela manutenção de armas nucleares no pós guerra-fria:

1. É considerado pelos Estados que já a possuem, como recurso positivo em prover segurança.

2. Estados que não possuem armamento nuclear são incentivados a obtê-los devido à perda de garantia de defesa antes promovida pelas superpotências.

3. A combinação do aumento de insegurança somado às instabilidades regionais, quais sejam no Irã, Índia, Paquistão ou Coréia do Norte, incentivam a proliferação das armas. 

4. Experiências contrastantes do Iraque e Coréia do Norte sugerem ao sistema forte e veloz proliferação de armas, aumentando o nível de insegurança e de ameaça.



No caso das armas convencionais, o assunto é de maior relevância, pois após a guerra fria, o arsenal é numeroso e sofisticado, tendo o fluxo mantido principalmente para uso em conflitos étnicos, promovendo a manutenção dos ganhos econômicos da indústria bélica, por meio do tráfico internacional de armas  incentivado pela falta de controle e de uma regulamentação de seu comércio entre Estados.

A insegurança é tida como fonte do problema da proliferação de armas entre os Estados detentores de armas nucleares em não permitirem que outros Estados as possuam, ocorrendo em possível instabilidade caso outros Estados venham a entrar para o grupo, o que, segundo eles, não causaria instabilidade por não se perceberem como responsáveis como aqueles que já as possuem, passando a questionar sua posição de somente eles deterem armamentos nucleares. Por não sofrerem risco de serem atacados, colocam-se na posição de possuirem os armamentos como forma de auto-defesa. Isso gera o dilema da segurança; quem não possui deseja ter para não ser atacado, fazendo com que os que já possuem, aumentem mais seu arsenal com fins de prevenção, levando novamente a uma corrida armamentista.

No caso das armas convencionais, a indústria bélica se vale da instabilidade de regiões em conflito, o que demanda constante fluxo de armas, justificando a receita de Estados envolvidos em sua produção e comercialização, uma contradição no sistema internacional, onde estes defendem acordos e tratados, mas que, ao mesmo tempo, promovem a comercialização de sua produção bélica que alimentam os conflitos pelo mundo.

Leandro Guiraldeli

Resenha: Nationalism and Ethinic Conflict – Stephen Ryan


Resenha proposta pela disciplina de Relações Internacionais Contemporâneas.

O autor expõe em seu artigo o conflito entre os conceitos de Estado e Nação, o choque entre as ideias políticas do Estado e a cultura étnica de grupos de indivíduos que formam a nação, resultando em conflitos internos de base cultural e étnica que põe em risco a integridade dos países como um todo.

Para entender melhor os conflitos, faz uma distinção entre etnia e nacionalismo, sendo a etnia, a denominação do grupo que descende de uma cultura própria de um determinado grupo de indivíduos que compartilham de uma história de descendentes e possuem um senso comum de valores vivenciados em um território específico para eles, e o nacionalismo sendo um conceito moderno de etnicidade pautada em princípios políticos do Estado, prevalecendo a ideia mais avançada de patriotismo, de fato, mais ligado ao conceito de “mundo moderno”, ou seja, enquanto o conceito de etnicidade aborda os grupos de indivíduos como centro de sua cultura, o nacionalismo aborda a cultura política de uma nação como a base de cultura para todos os indivíduos que compõe o Estado, onde os grupos de indivíduos são identificados pela sua cultura como um todo, e não como grupos de diferentes culturas étnicas dentro de um território.

O aumento dos Estados-Nações no sistema internacional pós guerra-fria, demandando por maior autonomia destes territórios pleiteada por suas comunidades que neles vivem, promovem a complexidade desta nova configuração que se forma pautada nos interesses das etnias por desejarem um posto diferenciado versus a não aceitação do Estado como um todo devido à perda de território e/ou o reconhecimento do status de grupo autônomo, levando-se em consideração que, a causa dos conflitos também podem advir tanto por meio de conflitos internos motivados pela inabilidade de duas ou mais culturas da mesma nação por não conseguirem viver juntas devido à dificuldades por não se respeitarem em suas diferenças, bem como pelos fatores externos impostas por práticas coloniais,  má governança e injustiça social imposta, pontos que devem ser levados em consideração na análise das situações.

Também se observa que, a organização interna dos Estados que promovem maior justiça social, por meio do bem-estar oferecido por serviços eficientes de saúde pública e segurança, minimizam os problemas internos, o que não ocorre em regiões onde grupos étnicos que desejam criar para si, definições fronteiriças por não aceitarem as diferenças, seja de língua ou religião das outras culturas que compõe o Estado onde estão inseridos, assim, estes grupos minoritários acabam por promover conflitos internos. Outro problema geral que afetam os Estados, são provavelmente dos grupos étnicos que não aceitam o conceito nacionalista de estado soberano que lhes são impostos, ocorrendo em conflitos que geram a desestabilidade do sistema como um todo, como também a ação forçada do Estado-Nação como um todo, em promover a limpeza étnica em seu território, bem como a imposição de sua ideologia política, ocorrendo em conflitos sangrentos, exigindo ações de organizações internacionais especializados em intervenção militar, reconstrução das sociedades desmanteladas por estes conflitos em âmbito social e jurídico, em ação de julgamentos de crimes oriundos de ações genocidas. Somente a ajuda humanitária, não corresponde à melhora dos conflitos, que segundo Ryan, outros autores expõe que o declínio dos conflitos se devem ao desenvolvimento de mecanismos que lidam com os assuntos por meio da promoção de normas legais para a proteção de indivíduos pertencentes a grupos étnicos minoritários, a exemplo do Genocide Convention, embora, segundo o autor, nunca ter sido acionado a responsabilizar e punir os responsáveis por suas ações genocidas, mesmo porque, ações como da Declaration on the Rights of Persons Belonging to National or Ethnic, Religious and Linguistic Minorities, criada para a proteção de grupos minoritários e seus territórios e para a promoção de suas identidades, é frágil em suas ações, pois tem somente força moral, por não poder invadir a soberania do Estado envolvido no caso em questão.

O trato com o nacionalismo e os conflitos étnicos se torna mais complexo na política mundial contemporânea, com o surgimento de novos Estados, e com isso, a possibilidade da auto-determinação de muitas etnias e a administração de possíveis conflitos que venham a ocorrer, seja de ordem cultural ou territorial, e um sistema de governança capaz de atuar com eficiência em sociedades multiétnicas, o que tem sido demonstrado pela crescente interesse de organizações internacionais no cuidado da boa governança a nível internacional, demandando maior participação da comunidade internacional em debates que ainda necessitam de maior atenção para as questões de ocorrências intervenção ou negligência aos conflitos.


O assunto é claro na questão multiétnica pela qual passa o sistema internacional desde o fim da guerra-fria, promovido pela unipolaridade norte-americana, tornando o sistema menos coeso e sensível aos movimentos étnicos, seja pelas diferenças de valores ou pelo objetivo de se tornarem autônomos, indo de encontro aos interesses políticos e de territórios das nações envolvidas neste processo, o que demanda até hoje maior ação por parte dos organismos internacionais, necessitando de sérios debates e ações sobre uma nova abordagem em relação à Soberania, motivado pelos movimentos étnicos decorrentes no cenário internacional desde o episódio de Westphalia.

Leandro Guiraldeli

Resenha: Aspectos da Teoria de Relações Internacionais: Notas Didáticas – Gélson Fonseca Jr.


Resenha proposta pela disciplina de Relações Internacionais Contemporâneas.

O autor expõe em seu texto, um exame a respeito dos problemas relacionados à formulação teórica das relações internacionais, com base em simples premissas dos estudos teóricos que aspiram à uma validade universal, bem como tenta examinar por quais caminhos as teorias existentes são melhores utilizadas afim de explicarem os acontecimentos mundiais do sistema internacional e o comportamento dos Estados dentro deste sistema. No entanto, com a proposta de que possamos por nós mesmos, qualificarmos nossa habilidade de entendimento da política externa brasileira, expandir este entendimento a nível de sistema internacional, por meio da análise singular dos Estados envolvidos em determinado assunto por meio da agenda internacional ou de algum acontecimento de nível regional, e a necessidade de adentrar e compreender as características e interesses intrínsicos das culturas que estão sendo analisadas para se determinar as causas dos acontecimentos que venham a promover um desiquilíbrio em todo o sistema.

O autor comenta que as teorias de relações internacionais buscam formular conceituações com o fito de explicar os conflitos entre os Estados, desde suas ocorrências, suas motivações e o seu desenvolvimento, bem como distinguir os diferentes níveis de atores envolvidos nos acontecimentos. Procura-se construir uma visão de conjunto das dificuldades encontradas para a formulação teórica que possa esclarecer de fato, o cerne dos problemas que geram os conflitos entre os Estados.

Penso que, devido à multiplicidade das características humanas que compõem as sociedades dos Estados, seu passado cultural e muitos de suas práticas e costumes; do ponto de vista econômico e político, seus interesses que corporificam suas políticas internas, por meio dos diferentes grupos de atores, sejam governamentais, não-governamentais e interestatais. Essas políticas internas repercutem no cenário internacional, gerando os acontecimentos que compõe a gama variada de questões, que, segundo Fonseca, “vão da guerra à cooperação humana, de ações unilaterais de Estados soberanos a formas diversas – e amplas – de interdependência entre sistemas produtivos e as sociedades nacionais...”, tornando mais complexo o procedimento inicial para o início da análise de determinado fato a ser esclarecido.
Fonseca expõe que “os problemas cotidianos poderiam [...] indicar as indagações que faríamos aos elaboradores de teoria”, não chegando a respostas conclusivas, mas que auxiliasse no esclarecimento dos rumos das ações e os resultados gerados decorrentes destas.

Daí que converge com o que pretendo expor ao nível do indivíduo ou grupo de indivíduos e os tipos de governos que compõem os Estados, onde o autor expõe como exemplo, o conflito na ex-Iugoslávia, com peso
“nos fatores étnicos na origem dos conflitos, sobre os modos através dos quais a comunidade opera em situações de crise, sobre a dinâmica regional européia, sobre lideranças (diga-se de passagem, formado por indivíduos que tem seus interesses) que usam o nacionalismo agressivo como instrumento para consolidar o poder nacional e tantos outros temas correlatos”. (FONSECA, 1994, p. 73)

E aqui, um questionamento pertinente do autor que expressa a dificuldade em “como formular hipóteses válidas, tão próximas das flutuações psicológicas de lideranças carismáticas ou dos embates intra-burocráticos?” (FONSECA, 1994, p. 74)

Penso que seja possível, mas estas hipóteses em breve curso do tempo perdem sua validade, pois o indivíduo se encontra em processo contínuo de evolução, ainda levando-se em consideração, as flutuações de interesses pelos quais passam os diferentes governos de um Estado, e o comportamento multifacetado dos diferentes atores que compõem o sistema internacional, corroborado por Fonseca quando expõe que “em ciências sociais, é extremamente difícil – senão impossível – o estabelecimento de hipóteses tão acabadas como nas ciências da natureza”. (FONSECA, 1994, p. 75)

Isso se torna um fato deveras complexo, pois as teorias com o passar do tempo se mostram engessadas e deficientes em tentar explicar fatos mais atuais que antes se mostravam mais coerentes com as suas premissas. Isto porque o conhecimento humano também se expande, tornando seu comportamento mais complexo e apresentando novas repercussões no cenário interno e internacional. É como se cada teoria enxerga-se apenas uma faceta do complexo comportamento humano, em cada época de nossa  história em que foi documentada.

Penso a necessidade de se ponderar com os interesses, as intencionalidades do aqui-agora das ações a que os governos se movem diariamente com clareza das repercussões internas e externas que se produzissem. Mas quem estaria disponível a tal empreendimento?

Portanto, as teorias precisam constantemente estarem evoluindo em outro sentido para que possam não somente acompanhar paralelamente as ações humanas, mas também nortearem as ações que ocorram em repercussões menos destrutivas pelas quais estamos passando, sejam guerras, conflitos étnicos ou a destruição de nosso meio-ambiente, tonando-se “verdades relativas de ponta”, ou seja, a evolução constante da teoria que exemplifique a evolução da consciência humana e sua atuação a nível estatal e mundial, talvez, possibilitando uma análise mais abrangente e integrada dos diversos níveis de análise, não somente associada à sensibilidade, mas também ao nível da visão de conjunto do analista.

Leandro Guiraldeli

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Que país é esse, hein, hein?

Que país é esse, hein, hein?

Ato1. Campanha nacional em favor da extinção do fôro privilegiado, promovida pela AJUFE - Associação de Juízes Federais (1/jun).

Ato2. Fantástico aborda (3/jun) a corrupção pegando carona na campanha.

Ato3. Constitucionalista entrevistado pelo Fantástico defende o fôro privilegiado. Estabilidade seria jogar sujeira pra debaixo do tapete? O que chamou atenção foi o constitucionalista Yves Gandra, um dos entrevistados na matéria, que defendeu o fôro privilegiado, utilizando-se do "Argumento da Estabilidade". Quando a fala de 1 minuto encerrou, ficou para mim aquele clima esquisito "no ar". Será que foi só comigo? O argumento: O Fôro Privilegiado, além de não ser um anacronismo, é um mecanismo necessário à República, do qual dependeria inclusive a estabilidade do Estado. Segundo ele, "certos julgamentos" necessitam ir para "certos tribunais" a fim de que "certos juízes", avaliados como mais "experientes", saberiam como ter um julgamento mais justo e condizente com a estabilidade do País, em "certos tipos de ocorrências".

O dito e o não dito: Na análise do discurso, para quem sabe ler entrelinhas, fácil verificar a fragilidade do argumento. Qual o contexto da entrevista? Operações da PF, autoridades acusadas com provas e soltas em seguida, corrupção endêmica, impunidade. Bem, o que a população espera de um jurista? Que sua ética lhe permita falar claramente o que pensa, sem subterfúgios e sem meias-explicações, que de tão vagas não permitem nem sequer compreendê-las a fundo, que dirá endossá-las.

A experiência dos magistrados à qual o Sr. Gandra se refere, dá margem a interpretar que, para ele, mais vale a estabilidade artificial de um Estado eticamente moribundo, uma espécie de risco-Brasil contido "à fórceps", do que a pujança de um País que precisa passar a limpo suas elites. Para o Sr. Gandra, ficou claro que a política deverá ser subserviente à economia, a fim de avançar na "Modernidade"

O contraponto: Melhor seria propor a redução aos índices absurdos de corrupção endêmica pelo avanço da emancipação cidadã, única verdadeiramente capaz de credenciar esta geração a romper com a ancestral e velhaca cultura política, dos tempos da política coronelista.

Não é a toa que a reportagem menciona o STF - Supremo Tribunal Federal para dizer que, em toda a sua história, jamais condenou (sic) alguém em processos de sua competência originária.

Ricardo Ribeiro - outro jurista na mesma reportagem, desfazendo a confusão entre "julgamento" e "condenação", diz que o STF não condenou porque nem sequer julgou.

O contra-argumento tem lógica. Como explica, na probabilidade cara/coroa da moeda não viciada arremessada ao acaso, não fôra o fôro (trocadilhando), a história do STF bem poderia ser outra.

A lambança: O que fica realmente é a distorção retórica ao "princípio da igualdade", subvertendo a Constituição e legitimando a desigualdade, quando os fins interessarem.

Ecoa a crença no príncipe está isento da observância da lei"princeps lege solutus est". Quem sabe a ortodoxia jurídica ainda se inspire na Velha Roma.

Quem sabe? Vai ver eu ando "vendo coisas"...

Falácias em nome da Estabilidade Política O Fantástico aborda corrupção, mas entrevista jurista renomado que defende foro privilegiado. Nota Zero!!!

sábado, 14 de agosto de 2010

Democracia Representativa ou Usurpadora?

É lamentável o que está ocorrendo entre os atuais candidatos à presidência da república.

O que a mídia vem expondo até o momento parece ser apenas o começo. Ou, ainda que possível, alguém acredita que seja uma encenação [hipócrita]?
Vamos à análise...

A troca de "elogios” indecorosos entre os mais cotados nas pesquisas, se engalfinhando que nem briga de moleques, ao invés de estarem com foco para o público, um tentando "sujar a barra" do outro.


Nem parece que estamos diante de um fato histórico relevante, que pode virar a mesa da cultura política – temos duas candidatas mulheres, sendo que ambas ocuparam espaço significativo no cenário público recente.

Se o exemplarismo, como nos explica a Psicologia, é tão significativo para nossa formação moral e de movimento(s) político(s), tanto sobre o que desencadeamos quanto ao que somos expostos, fácil notar a escalada de imaturidades, tipo reação em cadeia. Basta olhar o nível a que chegaram as brigas pelo poder nessas eleições, sobretudo na esfera federal.


Segundo meus estudos na faculdade, cheguei à conclusão que instituições partidárias têm uma distorção fatal na abordagem de poder:
Atuam pelos seus interesses, com as políticas dirigidas para o poder, ao invés de exercerem o poder, dirigidos à organização pública, com responsabilidade social.
E aí entra o eleitorado que, por falta de reflexão maior, na sua maioria não consegue enxergar além do que é mostrado na mídia; até mesmo os conchavos, pois, se não ganha um, ganha o outro, o que dará no mesmo rumo para a manutenção do poder para poucos.

A chamada Democracia Representativa, a meu ver, não representa ninguém, tão pouco a sociedade, pois funciona como usurpadora do poder público, que devia ser sim, emanado da sociedade mais consciente.

Continuam assim, apropriando-se da “coisa pública” ao invés de servi-la, perpetuando-se nos conchavos politiqueiros, elegendo quem lhes interesse e, com isso, evitando os que possuem - ou possam possuir - planos mais bem intencionados, com maior clareza e compromisso com o bem-estar da maioria.

Esta é uma prática que há muito é mantida, desde a criação do Estado, onde políticos profissionais (e anti-éticos) vêem na eleição a "oportunidade" para usurpar a Sociedade que deveriam representar, na tentativa de adiar ad eternum a capacidade da mesma de se autogovernar.

O poder deveria ser gerido temporariamente pelos indivíduos que se sentissem e estivessem realmente aptos a exercer um cargo político desta natureza com vistas a trabalhar com transparência para a sociedade.

Mas, observando e refletindo, tal atitude adviria de pessoas que estariam mais preocupadas não somente consigo mesmas mas com o bem-estar da sociedade onde vivem. Assim o era na Democracia Pura exercida na antiga Grécia. Quem hoje está mais ciente de tamanha responsabilidade?

A estranha sensação de que as coisas vão indo de mal a pior emerge, pois, do cenário social e político, não somente brasileiro, mas também mundial. Quiçá seja o início do fim desta etapa, que tende a ruir se pensarmos que o aumento do discernimento dos indivíduos é antídoto para a atual condição de espoliação usurpativa.

O que dá para ser feito? Mais conscientização e melhor educação...
Educação? Neste país em que se faz tão pouco?

Você leitor deve estar pensando que estou tirando um sarro! Pois é muito mais fácil deixar o público ignorante e robotizado, tornando-o mais dócil e facilmente manipulado...

Por que, nesse país, mesmo sendo barrado no “Ficha Limpa”, ainda há candidato liderando pesquisas de opinião em Brasília, como se não existisse nenhum impeditivo legal?

Vejam bem: Será que ele aposta que seus eleitores são “desmemoriados”, que saberão “perdoá-lo” pela sua “Ficha Suja”, ou aposta mais ainda que o Judiciário nada poderá contra seus mandatos de segurança “poderosos”?

Pois é, meus caros, mas saibam vocês que ninguém, ninguém mesmo, pode lhe tirar a capacidade de desenvolvimento da razão e do discernimento, pois são atributos que só a vocês pertencem.

A informação hoje é abundante, está chegando a todos com maior facilidade e, mesmo assim, deve ser refletida em detalhes, para se entender quais as fontes e quais os resultados que delas decorrem.

O movimento é lento, a evolução não vai parar, mas pode ser acelerada. Depende de cada um de nós; ou ainda acha que sua TV te conta tudo que deverias saber sobre a verdadeira Política - com “P” maiúsculo?

Leandro Guiraldeli

Bibliografia: Democracia Pura, J. Vasconcelos, 2007
Blog: Conselho dos 500

terça-feira, 20 de julho de 2010

Repensando o Voluntariado e a Responsabilidade Social

Repensando o Voluntariado e a Responsabilidade Social

Duas Lógicas - Cooperação e competição podem coexistir?


Duas Lógicas? Dois conceitos? Cooperação e competição podem coexistir? De início, os conceitos sugerem lógicas aparentemente divergentes. Ao final, a reflexão sobre como estas fronteiras estão se dissipando...

Lógica de Mercado.
Tradicionalmente, vale a lei do mais forte. Na lógica de mercado, faz-se analogia com a história da evolução das espécies, onde a sobrevivência só está garantida para os mais fortes.

Mercados Comerciais existem para vender produtos e serviços. São dominados pelos agentes que possuem dinheiro, tecnologia e conhecimento aplicado. O "custo de entrada" nos mercados mantém a mordomia dos agentes dominantes ao inviabilizarem a ação para os sem-dinheiro e os sem-conhecimento. Os corolários: lógica da competição, do descarte e da exclusão.

Lógica da Cidadania.
Vale a lei da insersão. Na lógica da vida, importa os Direitos Universais.
Mercados Sociais existem para promover a cidadania, através do encontro de financiadores com empreendedores sociais, de agentes de desenvolvimento com cidadãos gritando por oportunidade. O "custo de não-entrada" dos sem-dinheiro e sem-conhecimento ameaça inviabilizar qualquer projeto ético de qualidade de vida da classe média, permeável à autoculpa pela banalização da vida alheia. Os corolários: lógica da solidariedade, da oportunidade e da inclusão.

(IN)Sustentabilidade Econômica.
Em macro-economia, quanto maior um mercado nacional, mais interesse desperta e maior o poder de pressão (barganha). Empresas atuando em mercados vendem para consumidores. Para haver consumo (bens e serviços), é preciso poder de compra, que necessita de dinheiro, que só circula com trabalho e oportunidades.

Então, sem geração de trabalho e oportunidades, perde-se duas vezes. Pela falta de renda que inviabiliza o Mercado e pelas despesas sociais, que sobrecarrega Estados e Sociedade, via impostos. Há hoje, no mundo, mais excluídos que incluídos.

Deriva daí que alimentar a exclusão é uma furada! Mas então porque a pobreza não diminui? Bem, para perguntas complexas, não há respostas simples... E muito menos resposta única.

Pacto Empresarial pela Integridade e Contra a Corrupção.
Os dados oficiais indicam que o Brasil está muito mal no ranking da ética. Tem países piores mas isso não vem ao caso. O Brasil tem um grande mercado (potencial), mas precisa educar este mercado, e as pessoas para este mercado. Alô governo, cadê o exemplo?

Conivência S/A é sócia da Corrupção S/A.
Ambas são a prova de que muitas pessoas não entendem de mercado. Se entendessem, não investiriam seus talentos e suas energias para inviabilizar a si próprias um futuro melhor. O currupto já está preso e nem sequer se deu conta. Corrupção gera escravidão psicológica permanente porque o esforço de acobertamento suga o talento e a inteligência, e exaure a psiquê, que estaria melhor a serviço da construtividade.

Quando me perguntam se existe um mercado para a ética, respondo que só existe mercado com ética. Pois ética é a reflexão que se faz sobre os usos e costumes de uma cultura, um povo. Só através da ética pode-se rever a moral, os hábitos mentais e os valores em voga em cada época. E dessa reflexão, espera-se as melhorias e upgrades sociais.

Revendo Conceitos.
Agora voltemos às duas lógicas apresentadas no início. Pesquisas desenvolvidas na Alemanha, país que tem tradição em ações sociais de governos, indicam que cidadãos com direito a bolsa-caridade pura e simples acabaram apresentando comportamento contrário ao esperado, eximindo-se da competitividade natural, assentando bases no comodismo, refletido pela folha social crescente do governo alemão, país primeiromundista, uma das forças da União Européia.

Por aqui, no sul, temos o hemisfério dos (auto)excluídos. O Brasil, por exemplo, é um país que tem enorme mercado (potencial), mas o presidente decidiu a prioridade do Fome Zero. Distribuir para crescer, afirma ele. Apesar do desastrado 2006, houve a (re)eleição desta lógica. O país votou e temos mais 4 anos pela frente para acompanhar seus efeitos.

Já o Buarque - o candidato do Analfabetismo Zero, desconfio que cansou, ao bater na mesma tecla e só amargar a 4ª posição. A questão é o que este 4º lugar representou: preço pago pela insistência monótona do candidato a favor da Educação ou a inconsequência de uma maioria que não quer nem saber do assunto?

Bem, países diferentes, situações diferentes, estratégias sociais semelhantes. Governos que pensam a cidadania oposta à lógica de mercado, tendem a adotar estratégias ineficazes. Ainda não percebeu o por quê? Porque partem do princípio que os Mercados são uma ameaça e tendem a superproteger seus cidadãos, superacumulando recursos, aumentando seu próprio poder - e com ele a Corrupção S/A - valendo-se do sempre problemático Mito do Salvacionismo, melhor cabo-eleitoral já inventado em todos os tempos. Os mais demagogos ainda fazem propaganda dos seus feitos e suas benesses. Uma Lambança S/A, isso sim...

Paradoxo da Caridade.
Caridade é um arcaísmo da solidariedade. Pode vir a ser inclusive falsa-solidariedade, quando mesmo sem intenção, torna-se mantenedora do vício da baixa auto-estima, ao se alimentar da dependência sócio-cultural e do nível de educação precário alheio. Hábitos mentais são difíceis de mudar: há viciados em pedir esmola tanto quanto viciados em dar esmola. O constrangimento é maior ao enxergar por trás da necessidade alheia, a própria inércia pessoal. É triste, mas é o óbvio!

Melhor seria estimular a solidariedade, fruto da responsabilidade. Sim, indivíduos têm responsabilidade social, ou não têm? Esta não pode ser só de governos ou empresas. Não pode ser vendida, cedida ou delegada. Como emerge da maturidade, viabiliza o ombro a ombro, o ensinar a fazer, a presença física que acolhe e educa. Não assenta bases nem na caridade nem na arrogância, mas no exemplo pessoal, pois autoconsciente está das oportunidades que lhe foram dadas, do patrimônio de conhecimento que possui e das possibilidades de auxilio especializado a sua espera.

Mercado Social.
Governos e empresas inteligentes deveriam atuar sempre como fomentadores e não como executores de projetos sociais. Veja, por exemplo, a BVS - Bolsa de Valores Sociais. Promove o encontro entre a ação solidária e a vontade de empreender. Entra lá no  www.bovespasocial.com.br/Portugues/OngRegulamento.asp da BVS e procura uma área temática que não seja educacional. Não tem. Um ótimo exemplo gerador de lucro social.

Lógica da Multiplicação do Conhecimento.
A lógica da BVS é muito simples. Atua com o melhor dois dois mundos. Como assim? Exige a força e a competência apreendidos na lógica do mercado canalizados para o humanitarismo cidadão. A melhor disponibilização do esforço voluntário está na utilização do conhecimento para ensinar / educar. Se existem empreendedores sociais de talento, com disposição e vontade de fazer a diferença, estes sim tem a preferência da bolsa-sobrevivência-digna.

São eles que podem repassar com êxito e rapidamente o novo conhecimento na comunidade, pois a educação se assenta na confiança que os pares depositam neste multiplicador. A propósito, o elo comunitário explica muita coisa. Explica, por exemplo, a força dos Blogs... Bem, voltando aos Projetos Sociais, na hora da avaliação, os agentes de multiplicação se reúnem com os fomentadores, debatem melhorias no modelo, trocam experiência e formam uma rede e, em rede, todos se educam e se ajudam. A solidariedade substituiu a caridade com folga. Todos ganham, o mercado se aquece e, de quebra, gera-se empregos e promove-se a inclusão no atacado e não no varejão da caridade. Parece lógico, né! Que tal começar pelo Portal do Voluntariado, acessando http://www.portaldovoluntario.org.br

Lá você pode conhecer outros projetos e encontrar sua turma.